A  REVOLUÇÃO  RUSSA  E  A  CULTURA  OCIDENTAL

A  REVOLUÇÃO  RUSSA  E  A  CULTURA  OCIDENTAL

A  REVOLUÇÃO  RUSSA  E  A  CULTURA  OCIDENTAL

Por motivos que não vêm ao caso, veio-me à memória o único encontro que tive, no Rio de Janeiro, em meados dos anos setenta, com o conhecido intelectual e jornalista brasileiro Paulo Francis (PF). Um homem de causas públicas que fez o caminho da esquerda para o liberalismo, gostava de suscitar e debater temas fraturantes principalmente no âmbito do pensamento ideológico convencional e tinha vocação para criar inimizades e admiradores fervorosos. Ele abordava com vivacidade a matriz histórica da nossa forma de pensar que emergiu do Império Romano a oeste de Constantinopla ou seja a cultura ocidental, mais conhecida pela “designação pitoresca e popular de civilização cristã”. Os três acontecimentos decisivos para a consolidação da nossa cultura foram a Reforma de Lutero que abalou a raiz da coerência ideológica do cristianismo e fortaleceu o nacionalismo e o capitalismo, depois a Revolução Francesa que abalou os resíduos do feudalismo e abriu espaço para o desenvolvimento do capitalismo e do liberalismo após o governo de Robespierre e Saint-Just, e por último a Revolução Soviética numa Rússia semifeudal com uma reacionária igreja ortodoxa e que contrariando todo o ideário de Marx, “surgiu do nada”, disse PF. A Revolução Soviética nasceu apenas nas cabeças de Trotsky (despojado do poder em 1925) e Lenine e, apesar disso, tornou-se um “acontecimento decisivo” para a nossa cultura e a forma como ainda vivemos no “ocidente, quer queiramos, quer não”, acrescentou. Ele falava como se não tivesse tempo a perder, perguntou-me sobre os caminhos da Revolução de 25 de Abril, assunto muito noticiado no Brasil, mas ao olhar uma revista sobre a sua mesa de trabalho, interrompeu-me a sorrir: “Tony Curtis, lembra-se dele? Ele conheceu os bastidores e os leitos das mais famosas estrelas de cinema da época e dizia que Marilyn Monroe não era grande coisa na cama, você acredita nisso?” E rimo-nos. Adiante.

Marx e Engels previam a tomado do poder pelo proletariado e em 1917 a Rússia tinha 85% de população camponesa habituados a uma férrea autocracia e menos de três milhões de operários, não podemos esquecer que “em 1918, os bolcheviques dominavam apenas 10% do país e ninguém acreditava que a Revolução Soviética se mantivesse de pé sozinha”. E a violência? Apenas numa noite, a Cheka, antecessora da KGB, matou 150 mil pessoas em Petrogrado, “o sangue jorrava como água pelas ruas da cidade, Trotsky elegeu o Exército Vermelho para espalhar o terror e na batalha decisiva em Leninegrado, em 1919, mulheres comunistas atacavam tanques usando facas de cozinha. A Revolução triunfou, mas a guerra civil só acabou oficialmente em 1922”, disse-me PF nesse dia. O período mais pacífico, de conciliação de classes foram os sete anos seguintes, até 1929, com a política de economia mista em que as grandes empresas falidas do Estado foram apoiadas por empresários de médio porte e camponeses. Depois veio o terror estalinista até à ascensão de Khruschev (após a morte de Estaline em 1953). A violência de Estaline? A acelerada industrialização e militarização do trabalho na URSS na década de 30 é responsável pela vitória sobre a Alemanha nazi e pela conversão da Rússia numa superpotência. Mas o custo humano dessas realizações…10 milhões de camponeses assassinados na coletivização entre 1929 e 1932 (segundo Estaline disse a Churchill), um milhão de mortos nos expurgos de comunistas entre 1934 e 1939, o assassínio de famílias inteiras, de amigos, os exemplos públicos de punição política, “digamos 20 milhões de vítimas em números redondos. E como é que está a revolução em Portugal? Uma bela revolução, vamos a ver como acaba…”, disse-me PF antes de nos despedirmos.

No fim-de-semana seguinte, fui para Alcanhões, a vindima estava a terminar, a vida agrícola seguia o seu caminho, falava-se em saudade, velhice, abandono do campo, a recente morte de um ou outro idoso, os atentados terroristas em Espanha “aqui mesmo ao lado”, os refugiados, o castigo do árbitro ao Cristiano Ronaldo no jogo com o Barcelona, “isto está mau, muito mau”, disse-me um homem ao balcão do Café. “Mas Alcanhões está longe do terrorismo”, disse eu, ele não ouviu, “estou cada vez mais surdo e o tratamento do médico…”, as suas ideias eram expressas sem convicção. Comecei a enrolar um cigarro quando ele disse alguma coisa em relação à guerra colonial como se estivesse a sonhar, “estive na Guiné e participei da invasão a Conakri, lembra-se?”, fiz um leve sinal de cabeça e ele continuou “a minha filha enfermeira emigrou para Inglaterra no tempo do Passos Coelho e não vai voltar, há meses que não telefona e o novo padre da paróquia, acabado de chegar é um brasileiro, já não temos padres?”. Estava calor e a ventoinha no teto da salão para além do barulho não produzia qualquer efeito refrescante – um homem limpou a testa com um pedaço de pano e pediu “um copo de branco bem fresco” –  acomodei-me numa cadeira, olhei a cabeça de javali pendurada na parede, a atmosfera estava pesada e começou a doer-me a cabeça. Pouco depois, na televisão, passava o filme de Billy Wilder “Quanto mais quente melhor”. “Olha aquela boazuda…”, disse o homem levando o copo de vinho branco à boca. Pensei em Paulo Francis a dizer “ela não era grande coisa na cama”, Marilyn Monroe ali à mão na televisão do Café, um dos ícones da nossa cultura ocidental.

Jacinto Rego de Almeida

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