Aspectos da colonização do Brasil nos primeiros séculos

Aspectos da colonização do Brasil nos primeiros séculos

 

A partir de meados do século XVI, a colonização portuguesa do Brasil caracteriza-se pelo domínio quase exclusivo da família rural ou semi-rural. Domínio que só o da Igreja faz sombra, principalmente através da actividade dos padres da Companhia de Jesus.

A família, não o indivíduo nem tão-pouco o Estado nem nenhuma companhia de comércio foi, na opinião de Gilberto Freyre, o grande factor colonizador do Brasil, a unidade produtiva, o capital que desbrava o solo, instala as fazendas, compra escravos, bois, ferramentas, a força social que se desdobra em política, constituindo-se na aristocracia colonial mais poderosa da América. Sobre ela o rei de Portugal quase  que reina sem governar. Os senados de câmara, expressões desse familismo político, cedo limitam o poder dos governadores.

Observa Jorge Couto que entre os diversos grupos sociais que se foram constituindo no Brasil quinhentista, avultavam os grandes proprietários fundiários- normalmente senhores de engenho – que tinham origens sociais metropolitanas diferentes. Excepto alguns membros da alta nobreza que possuíam extensos domínios, uma parte dos senhores de engenho quinhentista era oriunda da média ou pequena nobreza, geralmente filhos secundogénitos que, devido à crescente expansão das instituições vinculares (com particular destaque para o morgadio), se viam privados de herança familiar, procurando constituir património fundiário próprio nas terras novas (1).

Os  primeiros senhores de engenho de São Vicente (Martim Afonso de Sousa e Pero de Góis), de Pernambuco (Jerónimo de Albuquerque) e do Rio de Janeiro ( Salvador Correia de Sá) pertenciam à nobreza.

Outro grupo socialmente influente era constituído pelos lavradores (de cana e, posteriormente, de tabaco), bem como pelos criadores de gado, sendo geralmente proprietários médios com disponibilidades financeiras para investir .

Os mercadores, muitos dos quais eram cristãos-novos, obtinham geralmente «grossos cabedais» com as actividades de exportação e importação.

A colonização por indivíduos como os soldados de fortuna, aventureiros, degredados, cristãos-novos fugidos à perseguição religiosa, traficantes de escravos, de papagaios e de madeira, quase que não deixou traço na plástica económica do Brasil, como observa Gilberto Freyre (2). Ficou à superfície e durou tão pouco que, política e economicamente, esse povoamento irregular não chegou a definir-se em sistema colonizador.

Por sua vez, Carlos Malheiro Dias salienta o facto de que não foi a cobiça que atraiu os portugueses para o Brasil, e observa que «no período inicial os colonizadores empenharam-se em enriquecer, paradoxalmente, a terra opulenta. Assim, cita Pero de Magalhães de Gandavo na sua obra Historia da Provincia de Santa Cruz, quando ele diz que o Brasil do século XVI recebeu, trazido nos porões das naus, a cana do açúcar, o gado vacum, cavalar, lanígero e outro, os cereais e a vinha, e os instrumentos agrícolas e mecânicos»(3).

O desenvolvimento da produção de açúcar atraiu um numeroso grupo de mercadores, tendo, em fins do século XVI, os navios holandeses e hanseáticos, começado a procurar directamente o produto, dominando a pouco e pouco o transporte do género para os portos europeus (4).

Jaime Cortesão, numa das suas obras, qualifica a acção colonizadora nos primeiros tempos nestes termos: «Arando os campos da quarta parte, isto é, regressando ao comércio marítimo com base na agricultura, que fora o género de vida e o fundamento da independência nacional» (5).

Outro autor, brasileiro, tem posições que reforçam a ideia de Cortesão. É o caso de  Almeida Prado, na sua obra Pernambuco e as Capitanias do Norte do Brasil (1530-1630), onde afirma que «a difusão das espécies vegetais a que os portugueses procederam por todos os continentes e ilhas onde estiveram, teve consequências ainda mal estudadas, mas que se pode afirmar serem das mais importantes na vida do antigo e do novo mundo» (6).

Observa, também, o seguinte aspecto: «Provido do ensinamento do índio, e do subsídio africano, o português introduzia na terra brasílica os princípios da agricultura ibérica» (7).

E, mais adiante: «A casa senhorial, a senzala, e as demais edificações que lhes ficavam próximas, tornavam-se o reduto português do interior das terras, completando o que a antiga feitoria iniciara à beira mar» (8).

Por seu lado, um companheiro de La Ravardière, na empresa do Maranhão, fez uma descrição do que já representava, nos primeiros anos de Seiscentos, o esforço desenvolvido nesta “Nova Lusitânia”:

« O que faz as coisas mais agradáveis é que agora se encontra comummente no país o que lhe era exótico no passado. Pois que a curiosidade dos portugueses, querendo todas as coisas na medida do seu gosto, levou-os a transferir para ali muitas plantas estrangeiras, tanto da Europa quanto da África; assim o trigo e a cevada desenvolvem-se muito bem e em grande abundância do Rio de Janeiro até São Vicente. As laranjas e os limões de diversas espécies são tão vulgares por todo o país que são encontrados nas matas, ultrapassando em bondade os de Portugal; os figos, as uvas e as romãs dão duas novidades por ano. As uvas são encontradas tão somente nos pomares, pois há proibição de fabricação de vinho. Há ainda tâmaras tão boas quanto as de África, também em pomares particulares. Os melões frutificam todos os meses e os marmelos ali crescem naturalmente. Quanto aos legumes e hortaliças, há couves e beldroega, e são comuns, as ervilhas, os feijões, as batatas e as abóboras de diversas espécies» (9).

Notas

(1) Jorge Couto, A Construção do Brasil, Lisboa, Edições Cosmos, 1995, p. 306.

(2) Gilberto Freyre, Casa Grande & Senzala, Lisboa, Edição “Livros do Brasil”, 2003, p. 31.

(3) História da Colonização Portuguesa do Brasil, dir. por Carlos Malheiro Dias, vol. III, Porto, s.n. (Edição comemorativa do 1.º centenário da independência do Brasil), 1924, p. X.

(4) José António Gonsalves de Mello, “ Pernambuco”, in Dicionário de História de Portugal, dir. por Joel Serrão, Porto, Livraria Figueirinhas,  1992 , p. 63.

(5) Jaime Cortesão, “Relações entre a Geografia e a História. As raças em presença. A colonização: síntese de um novo mundo e de uma idade nova. Administração central: Arrendamento e exploração das costas; Capitanias de terra e mar; Donatarias e Governo Geral”, Sep. de História da Expansão Portuguesa no Mundo, Lisboa, Editorial Ática, 1940, p. 17.

(6) J.F. de Almeida Prado, Pernambuco e as Capitanias do Norte do Brasil( 1530-1630), 4.º tomo, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Comp.ª Editora Nacional, 1942, p. 1.

(7) Idem, Ibidem, p. 15.

(8) Idem, Ibidem, p. 21.

(9) José António Gonsalves de Mello (ed.), “La Ravardière em Pernambuco” (1616), RIAP 51(1979), p. 251, apud  Evaldo Cabral de Mello, Olinda restaurada: guerra do açúcar no Nordeste 1630-1654, 2.ª ed., Rio de Janeiro, Topbooks, 1998, pp. 273-274.

José G. Barbosa Pereira

19510211

X