O homem que escrevia cartas a si próprio – IX

O homem que escrevia cartas a si próprio – IX

Havia agora dias assim e cada vez mais era levado a reflectir na diferença dos dias de hoje. Um novo e inusitado alento e vontade de conhecer novas coisas, novos caminhos e inconfessáveis e desconhecidas emoções que se lhe desenhavam no espírito aberto que agora sentia habitar em si.

 

Era um mundo novo, nada daquele de que falava Aldous Huxley no “Admirável Mundo Novo”, mas em certa medida, tudo lhe fazia lembrar uma das citações deste autor – “Eu queria mudar o mundo. Mas descobri que a única coisa que se tem a certeza de mudar é a si mesmo.” – Enquanto nessa sua obra mais conhecida, o “mundo novo” tivesse mais a ver com uma nova era tecnológica que ele, em parte, julgava adivinhar, as suas reflexões eram muito mais profundas e ligadas à própria condição humana. Era essencialmente a descoberta de si próprio. A entidade humana, racional e ao mesmo tempo espiritual, era o centro de tudo.

 

Era, pois, isto o que o nosso homem hoje sentia e cada vez mais acreditava e tentava integrar na sua personalidade e condição humana. A descoberta de si próprio. Mas, julgando conhecer ele, essa pessoa, ele próprio, deu, contudo, consigo a projectar na sua mente as capacidades imensas que habitam essa tal entidade a que chamamos “si próprio”. No fundo, julgamos que somos aquilo a que nos habituamos a ser. Aquilo que nos dá um certo jeito ser, sem grandes alterações e com quase todas as ideias arrumadas no conforto e organização do nosso pensamento. Geralmente não ousamos ultrapassar os limites a que nos impusemos, mesmo sem deles darmos conta, e assim nos acomodamos numa vida que começa todos os dias da mesma forma e acaba no sono que nos chega sempre também à mesma hora. Uma vida ordenada e quase que copiada no dia a dia.

 

Agora, ele começava a sentir diferenças e acima de tudo vontade, energia e urgência em conhecer o seu mundo desconhecido, o seu mundo oculto e reprimido por códigos de conduta e até de castrações de uma total liberdade de pensar. Como foi possível ter a sua mente restringida a limitações que lhe iam sendo impostas por uma asséptica maneira de pensar e de agir, assim limitada por si próprio, sem nunca ter sentido um apelo de se libertar de tanta e tão constante fidelidade a uma normalidade sufocante?

 

Em cada passeio que agora dava, mesmo mantendo a sua preferência pelas veredas campestres que serpentavam pelas encostas circundantes da sua casa, dava com ele a pensar com uma liberdade e uma sede de descoberta que nunca antes tinha sentido. Passou a questionar mais do que a aceitar, a imaginar mais do que a confirmar, a conceber novas linhas de pensamento, mais do que a cimentar as ideias que tinha vindo a consolidar ao longo de toda a sua vida. Sentia que o mundo e a vida se abriam agora à sua frente como um palco enorme em que a cada novo dia havia uma peça nova a ser estreada e aplaudida pela plateia. E a plateia era ele. E o actor era ele. O encenador. Até o carpinteiro e o electricista. Tudo estava ao seu alcance e tudo podia ser testado ao vivo e a cores no palco desta sua descoberta de si próprio. Era o mais aberto teatro experimental que jamais poderia ter imaginado.

 

Nos intervalos de toda esta euforia existencial, passou a ocupar parte do seu tempo com uma prática epistolar a que dava grande importância. Já não escrevia cartas a si próprio. Já não alimentava aquele bizarro acto de se corresponder com alguém que era o seu reflexo. Agora escrevia para a sua nova amiga Christine, na Holanda e sentia que uma enorme janela se havia rasgado na sua existência. As cartas eram, por vezes, minuciosas e descritivas, como se um rio de palavras e sentimentos tivesse nascido subitamente no seu mais profundo ser e procurasse um leito capaz de receber as suas águas impetuosas, mas que desaguavam sempre numa especial tranquilidade na foz que agora o ligava firmemente ao mar de Christine. Um mar sereno que se revelava no prazer que ela dizia sentir ao receber as suas palavras em cada carta trocada. Christine tinha uma escrita simples, mas poética e que parecia até ter colcheias e semicolcheias, quase que imperceptíveis notas musicais, em cada frase que compunha. E ele lia e relia estas melodias que ela lhe enviava. E respondia, por vezes, com rasgos de uma emoção sentimental que nunca havia conhecido em si. Conseguia escrever e descrever sentimentos que nunca ousara anunciar ou deixar transparecer. Palavras carregadas de ternura e afecto que lhe eram ditadas por uma solidão de que ele nunca se dera conta. Christine sentia cada palavra como uma surda queixa, um suspiro de alguém carente, em busca de um porto de abrigo. E assim, ia crescendo algo que nem ele mesmo sabia definir. Um urgente sentimento de partilha e de calor humano que galopava nas suas veias e lhe transmitia uma coragem, uma ousadia até, de libertar em palavras e ensejos, tudo o que lhe ia na alma e ameaçava mesmo transbordar pelo coração fora. A ideia de viajar, já não a podia esconder. O mundo tinha-se-lhe aberto como uma estrada nova e de fácil circulação. Dia após dia, esta ideia de rumar até à Holanda, foi ganhando uma cada vez maior dimensão, uma urgência indisfarçável, de que ele não podia, nem queria já fugir, nem disfarçar. Era o caminho que importava seguir e a decisão que ele conquistara. O futuro a que ele devia obedecer…

(continua)

ernani balsa

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