Pedro IV e a Praça do Rossio: Brutalidade, Paixão, Sexo, Revolução e Liberalismo

Pedro IV e a Praça do Rossio: Brutalidade, Paixão, Sexo, Revolução e Liberalismo

 

 

“Tenho a intenção que eu e o mano Miguel

havemos de ser os últimos malcriados da família Bragança”.

  1. Pedro IV, Rei de Portugal

 

Com a cidade de Lisboa cada vez mais frequentada por turistas, muitos passam pela Praça D. Pedro IV (mais conhecida como Praça do Rossio) e observam aquela estátua que, lá do alto, os fita com particular desprezo. Ocupa um lugar central naquela parte geográfica particularmente movimentada da capital e a verdade é que não podemos culpar, de pronto, aquele que foi Imperador do Brasil (D. Pedro I) e Rei de Portugal (D. Pedro IV) pela postura menos simpática da referida estátua, já que, bem entendido, essa estátua até pode eventualmente não ter sido feita originalmente em sua homenagem, mas sim em homenagem a um outro, esse também imperador, mas do México. Polémicas à parte, assumamos que a estátua se trata mesmo de D. Pedro IV e, portanto, passemos à frente.

Hoje, com vários séculos de história, a Praça do Rossio (ou seja, a Praça D. Pedro IV) continua a encerrar uma certa mística. Noutros tempos, antes do Terramoto de 1 de Novembro de 1755, ali se situavam, entre outras estruturas, o Hospital Real de Todos os Santos e o Palácio dos Estaus, onde funcionava o Tribunal da “Santa” Inquisição (as aspas são naturalmente nossas). Ou seja, num dos lados da praça, curava-se os males do corpo. A norte da praça, defendia-se uma ideia próxima daquela, mas com um outro tipo de requinte: a cura do espírito não raro passava também pela “cura” (temporária ou mesmo permanente) dos corpos dos infelizes que para ali eram levados. Perto também estava a Porta de Santo Antão, que prolongada numa muralha encimada por uma escada, era o lugar por onde alguns dos conjurados de 1640 passavam secretamente até ao pavilhão do jardim para realizarem determinadas reuniões, nas traseiras do Palácio de Almada.

Nem que fosse só por estas curiosidades, já a Praça do Rossio assentava muito bem na figura de D. Pedro IV, porque a sua vida foi isso mesmo: uma sinuosa tentativa de cobrir um espectro político em acesa e continuada mutação, tenha sido no Brasil, tenha sido em Portugal. Era filho de dois inimigos viscerais: o rei D. João VI e a rainha D. Carlota Joaquina. E sim, no seu caso, com particular satisfação para os seus admiradores, pois que é daqueles filhos deste casal que não se suspeita da sua paternidade. Outros casos há que, como é bem conhecido, não se pode falar com esta propriedade e com este grau de certeza. Muito longe disso, até porque a rainha não era fiel nem ao seu marido, nem aos seus amantes e, por isso mesmo, é muitíssimo mais difícil atribuir com rigor a paternidade de vários dos seus irmãos, seja a que amante for.

Independentemente destas certezas, o nosso D. Pedro IV era, na maneira de ser, muito diferente do seu pai. Deu mostras de uma irritabilidade e de uma cólera que emergiam sem grandes demoras, sendo também verdade que tinha ataques de epilepsia. No campo das conquistas pelo sexo feminino, era um homem que não se coibia de corresponder à fama de conquistador que, no Brasil, desde muito cedo, o transcendeu logo como príncipe real (de mulheres das mais diversas idades, dos mais diversos estratos sociais e independentemente da sua ocupação ou estado civil). Mas isto não era grave. O que se tornou particularmente preocupante foi a maneira como, no seu casamento com D. Leopoldina da Áustria, ele se tornou cada vez mais violento. Já casado, continuou satisfazer sem reservas os seus apetites sexuais e tinha até o desplante de apresentar as amantes à esposa como se tratassem de castas donzelas. Depois, dispensou-se até mesmo desses preceitos, fazendo as referidas apresentações ainda com menos vergonha.

Não foi preciso muito tempo para que o olhassem como um príncipe com uma imagem física muito agradável, mas sendo um homem vulgar e de más maneiras, mesmo para aquela época. Chegou ao ponto de literalmente agredir e insultar a sua esposa grávida, num tempo em que já ultrapassava todos os limites da moral com a sua amante Domitila de Castro, de quem até já tinha legitimado uma filha. Não havia mais barreiras: a própria irmã de Domitila também havia ficado grávida dele. Promoveu-se assim, como compensação, toda aquela gente, pois vergonha era qualidade que nessa altura não assistia nem a um, nem aos outros: Domitila passou a ser marquesa, o seu pai passou a ser visconde e o cunhado traído passou a ser barão…

Por causa destes pergaminhos que atestavam o caráter e o pudor daquele homem, não é particularmente difícil de entender que tenha sido muito penosa a tarefa de encontrar uma nova consorte para D. Pedro, quando este enviuvou. Mas lá se conseguiu: D. Amélia de Leuchtenberg. Em abono dele, há que reconhecer o firme arrependimento que teve pelas suas culpas no mau tratamento que havia dado à sua primeira esposa. E, na tristeza que depois tomou conta dele, deve ser salientada a sua convicta tentativa de passar a ser um melhor homem, um melhor marido e um melhor pai, naquele que foi o seu segundo casamento. Para registo, sabe-se que com a sua “máquina triforme” (era assim que ele alcunhava os seus genitais) foi pai de cerca de 35 filhos, tendo dado o nome de Pedro a quase todos os bastardos rapazes.

Abdicou duas vezes: em primeiro lugar, em D. Pedro II, como Imperador do Brasil; em segundo lugar, em D. Maria II, como Rainha de Portugal. Foi protagonista com o seu irmão D. Miguel (que também foi Rei de Portugal) na Guerra Civil Portuguesa, donde saiu vitorioso. Permitiu assim que o liberalismo vencesse em Portugal e que, naturalmente, a sua filha o sucedesse no trono, naquele que viria a ser um reinado extremamente difícil. Foi uma pessoa que, mesmo para o seu tempo, ultrapassou muitos limites. Foi controverso e continua a sê-lo. Mas salienta-se a inequívoca coragem que teve, por várias vezes, em seguir aquilo que, convictamente, achava ser a solução política mais correta em favor dos seus súbditos: tenha sido no Brasil, tenha sido em Portugal. Lá como cá, D. Pedro tentou sempre que a sua ação política estivesse alinhada com as legitimas aspirações do povo. Lá como cá, muitas vezes não foi compreendido. Angustiado e triste com a falta de reconhecimento que lhe haviam endereçado pelas suas ações, veio a falecer de tuberculose no dia 24 de setembro de 1834, no mesmo quarto onde havia nascido em 12 de Outubro de 1798: o Quarto D. Quixote, no Palácio Nacional de Queluz.

 

 

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