A Basílica de São Pedro: cisões, fusões e magnificência de um empreendimento gigantesco

A Basílica de São Pedro: cisões, fusões e magnificência de um empreendimento gigantesco

A Basílica de São Pedro: cisões, fusões e magnificência de um empreendimento gigantesco

 

“Nenhum elogio está ao nível de um homem tão grandioso.”

Inscrição dedicada a Miguel Ângelo, na Igreja dos Santos Apóstolos

 

A lenda diz que naquele ano de 312, um jovem general de seu nome Constantino teria visto uma cruz no céu, perto da Ponte Mílvia, em Roma, com as palavras “Sob este signo vencerás”. Constantino avançava para Roma no intento de desafiar Magêncio. A demanda foi favorável a Constantino. Magêncio acabaria por morrer afogado no Tibre durante o combate na Batalha da Ponte Mílvia e Constantino, o vencedor da batalha, trilharia o caminho que o levaria a extinguir a Tetrarquia vigente e a tornar-se no único governante do Império Romano. A mãe de Constantino, Helena, entretanto convertida ao Cristianismo, entendeu que aquela vitória era devida à intervenção divina de Jesus Cristo, pelo que não deixou de prontamente interceder junto do seu filho para que ele não só aceitasse a religião cristã, como também a legalizasse e a difundisse pelo Império Romano.

E Constantino foi longe nesse desiderato. Naquela que terá sido uma das mais emblemáticas ações concretas que efetivou nesse contexto, o Imperador mandou construir uma insigne basílica em homenagem a São Pedro (o primeiro Apóstolo de Cristo e o primeiro Papa), justamente no Ager Vaticanus, que era o lugar em que se acreditava que Simão Pedro havia sido crucificado (de pernas para cima, de acordo com a sua própria vontade, por não se achar digno de morrer da mesma forma que Jesus Cristo) e bem junto à área do Circo de Nero (também denominado Circo de Calígula).

Quando, no dia 18 de Abril de 1506, o Papa Júlio II seguiu o séquito de Cardeais e o conjunto de secretários e criados que abriram caminho por entre as várias pedras roubadas do Coliseu por ordem do próprio pontífice, algo de muito importante e escandaloso iria ter lugar: a primeira pedra da nova Basílica de São Pedro iria ser lançada. E com isso, o santuário construído pelo Imperador Constantino, mil e duzentos anos antes, iria agora ser destruído para dar lugar a uma nova basílica.

Dava-se início à profanação do lugar santo mais venerado da Europa e ao projeto arquitetónico mais ambicioso daquela época. O Papa Júlio II (certamente em homenagem ao glorioso Júlio César e não ao canonizado Papa Júlio I) era um homem determinado nos seus intentos e sabia que aquilo era apenas isso mesmo: um início. Muitos desafios agora se colocariam e, alguns deles (não poucos e não menos exigentes), só ocorreriam em pontificados posteriores.

Muito certamente, Júlio II não adivinharia isso, mas a verdade é que a construção daquela nova Basílica de São Pedro, embora iniciada como um símbolo materializador da unidade cristã, viria a constituir (pelos elevados custos inerentes e pelas controversas medidas adotadas para os suportar) um dos motivos (muitos outros havia, onde a decadência abissal dos valores defendidos pela Igreja e a pouca vergonha de vários pontificados teriam consequências absolutamente avassaladoras) para a cisão da Igreja Católica e para a emergência da Reforma Protestante.

Mas Júlio II talvez adivinhasse que, tal como ele, os Papas que o sucedessem não só continuariam a construir aquela basílica, como também (re)construiriam a própria cidade de Roma pelas imensas encomendas de palácios, praças, fontes e jardins que efetivariam. E de facto, o ritmo de (re)construção, fosse da basílica, fosse da cidade, não raramente iria ser similar e mesmo ombrear um com o outro. Nesse ensejo, muitas toneladas de pedras e de outros materiais da cidade pagã (e a consequente pilhagem de variadíssimas obras e monumentos antiquíssimos do Império Romano) seriam carregadas para a construção do novo santuário.

A nova Basílica de São Pedro uniria duas fontes de inspiração: a imponência do Panteão de Adriano e a solenidade da Basílica de Magêncio, num projeto portentoso que integraria, de facto, esses dois ideais de construção, mas que os multiplicaria em escala e em ambição, por várias vezes. Alicerçada no talento singular de alguns dos maiores arquitetos, engenheiros e artistas do Renascimento (que muitas vezes não estariam alinhados nem nas ideias que defendiam, nem nas emoções que sentiam), onde se contam, entre outros, os nomes de Bramante, Giocondo, Della Porta, Miguel Ângelo, Rafael e Bernini, a construção do novo santuário passaria por trinta papados, pelo saque da cidade de Roma, pela Reforma Protestante, pela Contra-Reforma e pela Inquisição.

Passaria também pelo transporte do enorme obelisco (que Calígula havia trazido de Heliópolis e que em tempos idos assinalava o local do circo imperial) do lado sul da basílica para o centro da Praça de São Pedro. Esse extraordinário feito de engenharia protagonizado por Domenico Fontana constitui apenas um dos grandes momentos de um processo de construção integrado e amplo, que, pasme-se, ainda assim, muitas vezes não teve um rumo definido e esclarecedor quanto ao resultado final que era pretendido.

Quando, em 18 de Novembro de 1626, o Papa Urbano VIII consagrou a nova Basílica de São Pedro, as obras ainda não tinham terminado e os sacrifícios, que não apenas os financeiros, também não. Seria apenas com o Papa Alexandre VII que a obra se completaria, e para sermos justos, importa dizer que à data da sua morte, no dia 22 de Maio de 1667, embora os dois braços da colunata de Bernini na Praça de São Pedro estivessem quase concluídos, ainda passaria mais de um século até que a última estátua fosse ali colocada.

A construção da nova Basílica de São Pedro elevou a Cidade Eterna a uma grandeza que havia perdido por abandono e por incúria. Admirável pelos seus antigos aquedutos e pelo seu exemplar saneamento no tempo do Império Romano, a verdade é que quando o Papa Nicolau V reinstalou o papado em Roma no século XV, aquela era agora uma Roma onde não havia sequer água potável. Tudo estava em ruínas e os terrenos baldios eram extensos e cobriam de vergonha a memória dos antepassados romanos. Ainda assim, aquela era a cidade onde São Pedro havia sido crucificado de forma invertida e onde São Paulo também havia sido decapitado. Logo, a alma da Cristandade, por todas as razões, continuava ali presente.

Embora a construção da nova Basílica de São Pedro não tenha ficado isenta de barbaridades que se fizeram em registos arquitetónicos antigos do Império Romano, através da tomada de materiais em abomináveis pilhagens (onde os imponentes Coliseu e Panteão não foram exceção nesse vandalismo institucionalmente autorizado), a verdade é que dos escombros da antiga Roma, uma nova Roma nasceria. E a nova Basílica de São Pedro seria mesmo construída, nem que para isso se tivesse derrubado o mais venerado santuário da Europa daquele tempo.

David Pascoal Rosado

1985.0253

X