Mais perto do Sol

Mais perto do Sol

Mais perto do Sol

No passado dia 12 de agosto de 2018, foi lançada com sucesso a sonda espacial Parker, construída pela NASA, que tem o mais improvável dos destinos: o Sol. Não é a primeira vez que o homem dedica uma sonda espacial unicamente ao estudo do astro-rei, mas todas as anteriores ficaram nas imediações da Terra. Quando a Parker alcançar a sua órbita final, será o objeto construído pelo homem que mais se aproximará do Sol: pouco mais 6 milhões de quilómetros, cerca de 4,5 vezes o diâmetro do Sol. Como termo de comparação, o planeta Mercúrio encontra-se 10 vezes mais longe, a 60 milhões de quilómetros do Sol. Nos momentos de maior aproximação, a sonda estará tão perto do Sol que viajará através da alta atmosfera, chamada de coroa solar.

Para se manter em órbita, a sonda Parker tornar-se-á igualmente o objeto mais rápido alguma vez construído pelo homem, atingindo uma velocidade de 700 mil quilómetros por hora nos momentos de maior proximidade ao Sol. Para poder alcançar uma velocidade tão elevada, a sonda fará sucessivas aproximações ao planeta Vénus, sete no total, que permitirão colocar a sonda na sua órbita final.

A sonda Parker recebeu o nome em homenagem a Eugene Parker, um cientista americano de 91 anos que dedicou toda a sua vida ao estudo do Sol. Na década de 50 do século passado desenvolveu a teoria do vento solar supersónico e previu a forma espiral do campo magnético do Sol nos confins do sistema solar. Em 1987 propôs ainda que a coroa solar seria fortemente aquecida por um conjunto de pequenas erupções solares que ocorrem em toda a sua superfície. Esta foi a primeira vez que a NASA atribuiu a uma sonda espacial o nome de uma pessoa ainda em vida.

O interesse científico desta missão é evidente, o de aprofundar o nosso conhecimento sobre o Sol. Apesar de ser a estrela mais próxima da Terra e absolutamente fundamental para a nossa existência (ver boletim #222), ainda há muitas coisas que desconhecemos sobre si. Para desvendar um pouco mais os mistérios do Sol, vários instrumentos de medida viajam com a sonda, tais como telescópios, sensores de campo eletromagnético, sensores de partículas ionizadas (protões, eletrões, etc.), entre outros. Têm por objetivo, por exemplo, mapear o fluxo de energia que aquece a coroa e acelera o vento solar ou determinar a estrutura e a dinâmica dos campos magnéticos.

Os instrumentos a bordo estão abrigados do forte calor e radiação através de um escudo protetor com mais de dois metros de diâmetro e dez centímetros de espessura, que está preparado para suportar temperaturas até 1400ºC. Os instrumentos encontram-se todos no centro do escudo, onde a radiação direta do Sol é totalmente bloqueada. Na ausência de escudo protetor, os instrumentos ficariam danificados e inoperáveis em apenas alguns segundos. No entanto, à medida que a sonda se aproxima do Sol o ambiente ficará cada vez mais agressivo e o escudo irá sendo progressivamente danificado. Por essa razão, a missão está prevista durar apenas sete anos, até 2025, altura em que será atingida a aproximação máxima ao Sol. Não sabemos se a sonda resistirá mais algum tempo, mas por essa altura o nosso conhecimento sobre o Sol em particular, e sobre as estrelas em geral, terá já aumentado de forma considerável.

Alexandre Correia (Dep. Física Univ. Coimbra)

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