PELAS MALHAS DO ANTIGO IMPÉRIO nas águas do Atlântico

PELAS MALHAS DO ANTIGO IMPÉRIO nas águas do Atlântico

Cabo Verde – As ilhas do Barlavento

Sabia que … pela ilha de Santo Antão, o ponto mais ocidental de África, passa a linha imaginária estabelecida no Tratado de Tordesilhas? E que nestas ilhas, os portugueses de então, recolhiam sangue das tartarugas marinhas para a cura da lepra?

Como já foi referido, Cabo Verde é um arquipélago de dez ilhas no Oceano Atlântico, que dista cerca de 455 km do promontório que lhe deu o nome, o cabo Verde, no Senegal. Este conjunto de ilhas, ao Norte do arquipélago, também era desabitado e após a sua descoberta, tal como o outro grupo, foi acrescentado ao património da Ordem de Cristo, criada em 1319 por D. Dinis, em substituição da Ordem dos Templários.

Por se localizarem numa posição de viradas ao vento são chamadas de ilhas do Barlavento e são elas Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau, Sal e Boavista. Destas, a única não habitada hoje, apesar dos seus 35 Km2, é a de Santa Luzia, que curiosamente já albergou comunidades de agricultores até ao século XVIII. Esta, hoje uma reserva natural, é a única que tem nome de uma santa, pois quase todas as outras ilhas de Cabo Verde têm nomes de santos, correspondentes ao dia em que foram descobertas.

Cristóvão Colombo numa das suas quatro viagens às ilhas do Novo Mundo (Américas) esteve em 1498 na ilha da Boavista e deixou um relato muito preciso do processo de desova das tartarugas marinhas, as mesmas a quem os portugueses daqueles tempos recolhiam sangue para a cura da lepra.

Santo Antão, a ilha mais montanhosa, é a mais setentrional e ocidental de Cabo Verde. O nome foi dado pelo navegador português Diogo Afonso que a descobriu no dia 17 de Janeiro de 1462. É a mais afastada do continente africano, pelo que o seu extremo oeste é considerado o ponto mais ocidental de África. Foi a partir deste ponto que se demarcaram as 370 léguas (1770 km) para oeste criando o meridiano referido no Tratado de Tordesilhas, assinado em 7 de Junho de 1494 entre Portugal e o Reino de Castela, e que determinou a divisão das suas áreas de influência. Este Tratado estabelecia que cabiam a Portugal as terras “descobertas e por descobrir” situadas antes do referido meridiano e a Espanha as terras que ficassem além dessa linha. Daí o facto, crê-se intencional, do território do Brasil ficar dentro da área de influência portuguesa.

Secas e fomes constantes e, de vez em quando uma erupção vulcânica, lançava a miséria e a doença entre a população, pelo que a partir do século XVIII a emigração para as cidades portuárias da costa americana foi uma constante. Por lá se aplicaram como marinheiros, baleeiros, camponeses, músicos, operadores e proprietários de navios etc. e em 1864 a comunidade cabo-verdiana nos EUA era já uma realidade. Os seus descendentes continuaram a granjear admiração e respeito pelo que hoje muitos ocupam honrosos lugares na jurisprudência e política americana.

Em 1879 o governo de Cabo Verde é oficialmente separado pela primeira vez da colónia da Guiné Portuguesa.

Em 1956 o cabo-verdiano e anti-colonialista Amílcar Cabral fundará o Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC), que iniciará uma guerra de guerrilha no território da Guiné, poucos anos depois. A 24 de Novembro de 1973, este declara unilateralmente a independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, não sendo reconhecida por Portugal. Cabo Verde tornou-se independente em 1975 na sequência da Revolução de Abril de 1974, acabando com o domínio português que durara mais de 500 anos. Cabo Verde romperá a sua ligação política ao PAIGC em 1980 após desentendimentos entre políticos guineenses e cabo-verdianos.

 

(Ray Almeida, Damião Peres, A. Silva Rego. Por decisão pessoal, o autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico).

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