recuperar o futuro…

recuperar o futuro…

recuperar o futuro…

eu sei que pode parecer desajustado, anacrónico até, usar esta expressão que nos remete para uma situação sem sentido, na ordem natural das coisas. como recuperar aquilo que ainda não sucedeu?

vivemos um tempo que, em princípio, em termos genéricos e relativos a cada época, não diferirá muito do tempo já passado. quero com isto dizer que, de acordo com as condicionantes e parâmetros de cada época, aqueles que podem definir os hábitos e práticas da sociedade ao tempo de cada evento e como essas marcas se vão adaptando àquilo que se poderá chamar progresso e evolução, podemos ter a sensação de que o modus-vivendi de cada tempo se conjuga com esse mesmo tempo e assim daí não virão ameaças significativas para um futuro que ainda é desconhecido!…

acontece que, hoje em dia, o futuro já não será totalmente desconhecido e daí a grande diferença, que nos remete, cada vez mais, para uma crescente necessidade de sermos capazes de projectar no vazio desconhecido desse futuro as consequências daquilo que hoje consideramos consentâneo com o tempo que vivemos. aquilo que hoje vivemos e o modo como lidamos com a natureza, interferirá amanhã nesse tal futuro, com o factor crescente de interferência progressiva que qualquer processo de degradação vai ganhando na sua relação com o planeta e mesmo com o universo. nada, nesta imensidão da vida e do espaço, permanece imutável e perene ou está especialmente protegido pelas consequências de mutações físicas e químicas ou mesmo apenas pela acção pretensamente instintiva e natural dos seres vivos que nela habitam. tudo o que hoje fazemos se reflectirá naquilo que amanhã virá a ser esse futuro.

o ritmo actual da nossa vida parece ter sido acelerado de um modo quase incontrolável. tudo acontece depressa de mais, mas isso reflecte-se também nos avanços da ciência e na descoberta de novos caminhos para se chegar a mais elevados patamares de conhecimento. e isso é útil e positivo. acontece, no entanto, que o uso descontrolado dessa sede de imediatismo e avidez no alcance de novas metas, sejam elas científicas ou económicas, pode conduzir-nos a um descontrolo ameaçador de precaução, relativamente à preservação de um equilíbrio ambiental, que terá consequências nefastas e quiçá irreversíveis a montante no espaço e no tempo. muitas das intervenções do homem, em nome de um progresso sem limites, estarão na origem das alterações climáticas de que tanto se fala e que indubitavelmente ameaçam o futuro da humanidade e mesmo para além dela própria…

mas não são só estas as ameaças de que estamos rodeados. também no plano estritamente social e mais ainda no político, se colocam preocupações cada vez mais evidentes. a política, por muitos considerada uma ciência, tem como elemento de risco, a imponderabilidade do homem e também a sua ganância de poder. é muito fácil, em nome da política, descurar-se e até manipular-se as variáveis que influenciam os seus efeitos e caminhar também para um outro tipo de desequilíbrio social e comportamental, quase tão ameaçador como aquele que tem a ver essencialmente com os comportamentos do homem perante a natureza, terrestre ou mesmo cósmica.

a premente actualidade das alterações climáticas confunde-se perigosamente com outros tipos de alterações nas relações entre os humanos e entre estes e a natureza, vegetal ou animal e mesmo com o âmago mais profundo do planeta terra, os seus recursos minerais e energéticos. esta promiscuidade de más práticas reflecte-se negativamente no comportamento político e social da população, desde os mais fracos e impotentes até aos escandalosamente ricos e poderosos. as guerras e conflitos latentes que brotam de uma paz podre e enganosa, a insuficiência de meios de subsistência, muitas vezes provocada por um criminoso uso de recursos naturais necessários ao crescimento desgarrado de indústrias poluentes e insensíveis aos seus estragos e exaustão dos subsolos, fazem crescer os fenómenos migratórios a que hoje assistimos, sem que um verdadeiro sentido humanitário consiga ou queira mesmo encontrar soluções, mesmo que transitórias, para este drama dos nossos dias. os estados e países mais ricos e mesmo aqueles que já começam a emergir de situações, também elas, de pobreza ou dificuldades sociais e económicas, não conseguem chegar a um consenso sustentável para acudir a estas situações extremas. a própria união europeia, um projecto algo idílico, mas também frágil na sua consistência, tem-se vindo a afundar no seu próprio ego, desde que cometeu o erro de tentar conciliar humanismo, livre circulação e sustentabilidade social, com economia e um sistema financeiro de moeda única. não terá sabido ouvir as vozes de alerta que se pronunciaram contra esta tentativa de conciliação entre deus e o diabo!… é mais que sabido que quando o universo financeiro invade as áreas sociais e humanas da sociedade, é como uma erva daninha que infecta tudo o que vive à sua volta. a união europeia está praticamente moribunda, sem respostas na esfera humanitária e social, sem defesa e defesas, sem uma política comum de solidariedade activa e sem capacidade para impor um sistema financeiro que não seja destrutivo e autofágico!…

é pois neste contexto, que a ideia de “recuperar o futuro” passa a fazer sentido e mesmo a tornar-se na palavra de ordem indispensável à salvação do planeta e da sua perfeita integração num universo que nos exige respeito e bom senso!… se não cuidarmos hoje dos desequilíbrios já existentes, se não conseguirmos melhorar as políticas em curso e levarmos os líderes e demais responsáveis a conciliar progresso com sustentabilidade e a combaterem definitivamente aqueles que colocam o lucro e o exercício do poder acima de tudo, se não conseguirmos eliminar os focos de uma cruel e insensível maldade que põe a ganância a qualquer preço acima da própria humanidade, promovendo guerras para venderem as suas produções de materiais bélicos, se não procurarmos na ciência um progresso que não nos destrua, a nós e aos nossos recursos naturais, se não soubermos olhar para o futuro como aquilo que o planeta nos irá devolver como prémio ou castigo das nossas acções e decisões de hoje, quer dizer que não fomos capazes de o recuperar em condições de nos receber amanhã e assim continuarmos o nosso caminho para uma humanidade no mais perfeito equilíbrio possível…

será impossível recuperar algo que já está comprometido à partida e mesmo antes dela!…

ernani balsa

lisboa. 30. agosto. 2018

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