Page 24 - Anexo do Boletim da APE N.º 275
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COMEMORAÇÃO DOS AA ENTRADOS EM 1974
No passado dia 6 de outubro, terminado o almoço, comemorativo o José Raimundo
(AA 19740003) fez um resumo da aventura de crescimento daqueles “meninos” de 1974:
Exmos. Senhores e Senhoras, caríssimos Pilões, em nome da organização quero agradecer-
vos por estarem aqui hoje connosco a celebrarem os nossos 50 anos de entrada no Instituto
Pupilos do Exército
Hoje é o dia dos Pilões de 74 comemorarem os seus 50 anos e escrevi um texto com algumas
memórias vividas entre as paredes do Pilão dessa época.
E porque aqui estamos hoje, uma das primeiras lembranças que me vem à memória eram as ro-
marias de ex alunos já velhotes, que vinham comemorar os seus 50 anos de entrada, e recordo
que nessa altura pensávamos, se algum dia nós viríamos comemorar os nossos 50 anos. Pois
caros Pilões de 74 aqui estamos hoje a comemorar os nossos 50 anos de entrada e os velhotes,
hoje, já somo nós.
Foi no longínquo dia de 6 de Outubro de 1974 que demos entrada na primeira secção do Pilão.
Acompanhados pelos nossos pais, demos entrada nesta casa tão bela e tão ridente, trajando
com as nossas roupas á civil que imediatamente foram substituídas pela farda cinzenta e botas
de pele de vaca engraxadas com sola de pneu que durava e durava, essas mesmas botas que
nos feriram os pés delicados logo no primeiro dia e assim nos proporcionaram a primeira visita
ao Fan para receber os cuidados do Sargento Correia e do funcionário Martim.
Mas foi no convívio com os mais velhos que começamos a sentir o espírito de ser Pilão, a medir
com paus de fósforo pequenas distâncias, que tínhamos de repetir inúmeras vezes porque su-
postamente nos enganávamos a contar, e claro, desde logo, aprendemos que não se discutia
com os mais velhos, porque eles tinham sempre razão.
Foi também nos primeiros dias que tomamos conhecimento da existência do “cartolas”, esse
espírito secular da família dos Castros que apesar de estar há muito tempo a viver no Éden, no
"jardim de Deus", descia à terra e circulava nas imediações dos claustros. Este ser etéreo era o
terror dos caloiros. Logo de início prometeram-nos que em breve nos seria apresentado. Obvia-
mente ficámos todos na expectativa de o conhecer.
E assim aconteceu, na segunda semana depois do jantar, numa visita nocturna guiada à igreja,
dois caloiros de cada vez, lá foram acompanhados por um aluno mais velho, que os dirigiu até à
cripta à luz de uma vela. Aí em plena cripta, fomos brindados com uma visão sinistra, fantas-
magórica, pois havia inúmeras ossadas empilhadas em caixotes e caixões abertos, foi aterrador
e como se não bastasse, eis que surgiu do meio deles, o Cartolas aos gritos, envolto num lençol
branco. Foi uma experiência de terror absoluta. A vela foi assoprada de imediato pelo Cartolas e
apagou-se. Ficámos na escuridão a ouvir os gritos do Cartolas, em absoluto pânico rodeados
por ossadas sem saber como fugir dali e regressar ao mundo dos vivos. No meio de tanto pâni-
co, aos tropeções e no meio da escuridão lá encontramos as escadas de madeira que nos leva-
ram até ao cimo da igreja e de seguida saímos para os claustros. Mais tarde outros caloiros co-
mentaram que conseguiram escapar por uma janela lateral da cripta passando pelos estreitos
gradeamentos. Cá fora nos claustros os outros caloiros que ainda não tinham tido o privilégio de
conhecer o Cartolas aguardavam com receosas expectativas, que se agravavam à medida que
os caloiros saíam da igreja de forma muito apressada e com os rostos assustados e alguns co-
bertos de lágrimas, e pensavam que provavelmente ali não estariam a distribuir chocolates.
As primeiras semanas lá passavam a custo e lá nos fomos adaptando pouco a pouco com a vida
de internato que se vivia nessa época. Os toques da alvorada eram feitos por cornetim, cujo cor-
neteiro depois dos primeiros acordes fugia em passo de corrida, debaixo de uma chuva de botas
que lhe eram arremessadas das janelas em sua direcção a partir das camaratas da segunda
companhia. Os que tinham o sono mais pesado tinham o privilégio de serem acordados de for-
ma muito pouco meiga pelo capitão Hoss.

