Page 25 - Anexo do Boletim da APE N.º 275
P. 25

Anexo Digital do Boletim 275
25
OUTUBRO A DEZEMBRO DE 2024
Algumas vezes acordávamos e não nhamos botas para calçar, porque as mesmas nham sido furta‐
das às escondidas pelos alunos mais velhos na calada da noite, e ulizavam-nas para enfeitar as árvo‐
res da parada superior. Como nhamos de nos despachar para a formatura do pequeno-almoço, obvi‐
amente não nhamos tempo para encontrar as nossas próprias botas e rapidamente aprendemos a
nos desenrascar com um par de botas quaisquer desde que nos servissem e assim aprendemos o sig‐
nificado da parlha entre colegas.
Ao jantar por vezes eram-nos lançados desafios para fazer redacções, sobre temas variados, com as
letras do alfabeto que extraíamos da canja, meculosamente escolhidas e de forma muito arsca lá
compunha-mos um texto bem formatado no tampo de uma mesa do refeitório.
Muito cedo aprendemos a colocar os peixes dentro dos jarros da água, porque nhamos o dever de
devolvê-los ao seu habitat natural. Este era o desno de várias espécies das quais se destacavam a
solha, o red fish e as pescadinhas de rabo na boca. Era frequente dizermos entre nós, o jantar hoje é
tubarão.
Nos dias de croquetes ou pastéis de bacalhau, era dia de compeção para ver quem comia mais uni‐
dades. Às vezes a compeção acabava no hospital militar da Estrela por indigestão.
Também fazia parte da ementa o frango morto à paulada, às vezes na variante eslhaçado que era
produzido no aviário do Zé das Porcas e era fornecido ao Sr. Marques da cozinha já pronto a comer.
Em 1974 não havia duches na primeira nem na segunda companhias e o furriel “Chico” obrigava os
alunos mais novos a tomar banho nos balneários da terceira companhia, que era um território pouco
recomendável para ser visitado por caloiros. Nesse território hosl, habitualmente éramos brindados
com praxes variadas, entre as quais camas para fazer, botas e sapatos para engraxar, fardas para are‐
ar, etc.. Sermos obrigados todas as quartas-feiras a deslocar-nos à terceira companhia para tomar um
banho de água fria, porque há muito que a água quente já nha sido consumida pelos alunos mais
velhos, não era nada aliciante. No regresso nhamos de passar pelo escrunio do furriel Chico, que se
encontrava plantado na parada superior à nossa espera e lá o enganávamos apresentado o cabelo
previamente molhado no lavatório para mostrar que nhamos tomado banho. Com a entrada do di‐
rector Brigadeiro Castelo Branco Brito em Dezembro de 1974, também ele um ango aluno, foram
feitas algumas melhorias nomeadamente a construção de balneários na primeira e segunda compa‐
nhias e assim, terminaram as excursões obrigatórias aos balneários da terceira companhia.
Recordo um episódio que deu origem às primeiras “geraldinas” movadas pelo então suspeito caga‐
lhão, que insisa em ir defecar todas as noites nos balneários novos. Claro que ninguém se acusava, e
bufar era interdito, como tal pagávamos todos por isso e assim lá fomos incrementando o nosso espí‐
rito de grupo.
Quando chegou a semana que antecedia o carnaval, ficámos a saber que essa semana seria memorial.
Os primeiros sinais da época carnavalesca ocorreram quando estávamos na aula de português que se
situava no piso abaixo da camarata da primeira companhia, e pela janela da sala de aula observámos
colchões, almofadas e cobertores a serem arados para a piscina. Todas as noites dessa semana car‐
navalesca nhamos de forficar a entrada da camarata com os armários metálicos para evitar as inva‐
sões barbaras dos alunos mais velhos que vinham armados até aos dentes com mocas e chicotes fei‐
tos com as toalhas de banho, para nos chegarem a roupa ao pélo.
























































   23   24   25   26   27