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BOLETIM 279
OUTUBRO A DEZEMBRO DE 2025
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HERÁLDICA
A ARTE DOS SÍMBOLOS IDENTITÁRIOS
O século XII trouxe à Europa ocidental a moda, en-
tre os combatentes, de desenharem ou pintarem
no seu escudo defensivo (o primeiro elemento que
exibiam ao adversário) os seus elementos identifi-
cativos. O escudo era, por assim dizer, o seu cartão
de visita.
A ciência – técnica ou arte – que estuda e interpreta
as origens, evolução, significado social e simbólico,
filosofia própria, valor documental e as finalidades
dos escudos de armas e de outros elementos com-
plementares chama-se: Heráldica.
Porquê esta voga que em cerca de meio século se
espalhou por toda esta área?
Selos equestres de Raoul de Vermandois
de 1135 e de 1146
Mas, afinal, este costume medieval foi moda daque-
le instante ou prolongou-se até à atualidade?
Por causa da evolução
do equipamento de
combate que passou
a incluir a proteção da
cabeça do combaten-
te – o elmo – que, para
além das inegáveis
vantagens de o defen-
der dos golpes desfe-
ridos por arma inimiga,
apresentava o sério
inconveniente de o tor-
nar irreconhecível.
Elmo militar do séc. XIII
(Topfhelm)
A identificação dos beligerantes, porém, era de capi-
tal importância o que concorreu para que estes co-
meçassem a ornamentar os seus escudos com os
mais diversos motivos: uma vitória anterior no cam-
po de batalha, um animal ou planta da sua simpatia,
um amuleto ou uma cruz (quem vai para uma guerra
sente-se mais protegido se transportar um símbolo
das suas crenças ou das suas superstições).
Essa moda foi assim tão importante naquela época?
Foi. Há vários factos históricos que o comprovam,
mas citemos apenas um:
Raoul de Vermandois, senescal de França (1085 –
1152) usou, em 1135, um selo equestre que, 11 anos
depois – em 1146 – substituiu por outro. No primeiro,
já é visível o escudo, mas na sua face posterior; no
segundo, todavia, há uma torção do cavaleiro para
a direita de forma a mostrar a face anterior, onde
são exibidos, através de pinturas ou desenhos, os
seus elementos identificativos. Isto quer dizer que
num espaço de uma década, a heráldica se afirmou
passando a ter grande importância no conjunto dos
costumes medievais, e bem balizada no tempo: po-
demos afirmar que o início do fenómeno heráldico é
também o do nascimento de Portugal como nação
independente.
Armas de Resende, e rótulo de uma garrafa de vinho
com as armas de Resende (desenhos de JMPS)
Se considerarmos os emblemas das instituições,
das autarquias ou os rótulos de algumas garrafas de
bebidas alcoólicas, observamos que muitos deles
são heráldicos, ou seja, a identificação iconográfi-
ca de muitas entidades ainda é feita através desta
linguagem carregada de enorme simbolismo e de
imensa pujança.
Mas a heráldica, como se disse, estuda também os
elementos que complementam o escudo: os seus
elementos exteriores. Entre outros temos a correia,
o virol, o paquife, o timbre, a divisa, o grito de guerra
e as condecorações. Dada a dimensão deste artigo
não é possível caracterizar todos eles com detalhe.
O virol é um rolo torcido que protege o combatente
e do qual nasce o paquife. Assenta diretamente so-
bre a parte mais alta do elmo.
O paquife é um conjunto de peças de pano que nas-
cem do virol e enfraquecem a incidência dos raios
solares sobre o elmo. Tem formas caprichosas dan-
do a entender que aquele forro está rasgado e, con-
sequentemente, que o combate anterior foi duro.
O timbre é uma peça tridimensional colocada so-
bre o elmo com a intenção de mostrar ao adversá-

