Page 22 - Boletim APE N.º 279
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OS FUNCIONÁRIOS CIVIS NO INSTITUTO
O Instituto tem e sempre teve excelentes professo-
res, militares e funcionários civis… para além das
Direções, sempre de elevada responsabilidade e de-
dicação extrema, nomeadamente as mais recentes.
Neste artigo vou escrever sobre um tema um tanto
esquecido e pouco abordado pelos pilões ao longo
das várias gerações e edições do Boletim da APE.
Escrevo sobre os funcionários civis que serviram no
Instituto e que conheci, entre 1964 e 1974, como alu-
no e entre 1985 e 1988, como professor. Não eram
funcionários de empresas externas, pertenciam ao
quadro de pessoal do Instituto.
As senhoras das rouparias, onde se armazenavam
e tratavam as nossas fardas, roupas e restante en-
xoval, os funcionários da cozinha e do refeitório que
confecionavam e serviam as refeições, os funcio-
nários dos balneários e ginásios, os funcionários
administrativos que exerciam tarefas na Secretaria
Escolar ou na Contabilidade, os porteiros nas en-
tradas das duas Secções, os contínuos de apoio às
salas de aula, os técnicos nos diversos laboratórios,
os funcionários operários nas várias oficinas, os bar-
beiros, os enfermeiros, os sapateiros, as senhoras
da limpeza…
Todos e cada um, com as suas atividades e respon-
sabilidades, tratavam e ajudavam-nos, fazendo par-
te do nosso quotidiano no Instituto.
O Sr. Ferreira – Homem grande, barbeiro, era o mais
temido quando da nossa obrigação do corte de ca-
belo militar; para além do cabelo rapado à “Ferreira”
era o banho de água que forçosamente aí levávamos
pois das suas grandes mãos tipo raquete emanava
um “balde de água”… para refrescar as nossas ca-
beças.
O Sr. Girão – Homem simples e modesto, com uma
pequena deficiência numa perna, era o responsável
do aquecimento de águas quentes nos balneários
dos banhos da manhã e no intervalo de almoço. Se a
caldeira não aquecia a água, porque estava avariada
ou mal regulada… o Sr. Girão ouvia dos alunos umas
boas “bocas”, tipo “Ó Sr. Girão, a água quente está
fria”, mas as respostas também as dava e na “ponta
da língua”.
O Sr. Vieira – O “mui nobre” e mais “castiço” dos
funcionários civis, muito considerado pelos alunos,
era o tipógrafo na 1.ª Secção, que nas suas refinadas
narrativas, o exagero e o excesso eram norma e apa-
nágio. Há “histórias” de autoria do Sr. Vieira e narra-
das por ele, que são eternas… e verdadeiramente
inesquecíveis. Na suas conversas era frequente nar-
rar encontros e troca de ideias com personalidades
políticas importantes do regime à época e gabar-se
que o tratavam como um igual. A expressão “Sôr
Vieira” passou a ser entre os alunos a denominação
popular e generalizada de quem está a exagerar ou
a engrandecer algo que não merece tal avaliação ou
classificação.
O Sr. Rolhas – O “general” nas portarias, que garbo-
samente na sua farda nos controlava para não nos
deslocarmos entre Secções senão em formatura.
O Sr. “Yabife” – Funcionário da Contabilidade que
tratava da logística alimentar do Instituto sendo
muitas vezes criticado e vaiado pelos alunos.
O Sr. David – Pai e avô de dois pilões de gerações
diferentes, que também deixaram vincadas as suas
passagens no Instituto, o primeiro como aluno e
professor, o segundo como aluno, é o funcionário ci-
vil que mais recordo. Muito competente e informado
era de uma dedicação extrema ao Instituto sendo
uma referência nas suas funções e responsabilida-
des na Secretaria Escolar. Tratava todos os alunos
por igual, sempre com afabilidade e atenção.
Conheci-o em duas situações, primeiro como alu-
no entre 1964 e 1974, e entre 1985 e 1988, quando
fui professor. O Sr. David Correia era o Adjunto do
Secretário Escolar, o Coronel Delfim Nunes, gran-
de militar e personalidade a quem o Instituto muito
deve.
O Sr. Francisco e o Sr. Lourenço Marques no refei-
tório, ambos conhecidos e alcunhados de “Mestres
Cucos”… ficaram também nas nossas memórias.
O Sr. Moura das oficinas de carpintaria, o Sr. Do-
mingos das oficinas de serralharia, o Sr. Dias do la-
boratório de física, o Sr. Mourão do laboratório de
química, o Sr. Mário e o Sr. Marques da oficina de sa-
pataria, a Dona Teresa “Canhão” e a Dona Dulce da
limpeza, o Sr. “Zé da Porcas”… entre tantos outros.
Mas nas rouparias as senho-
ras que nos tratavam das
fardas e roupas eram, nos
primeiros anos no Instituto,
uma retaguarda generosa de
carinhos e afetos que nos
lembravam e transportavam
para as nossas famílias que
estavam, algumas delas, mui-
to longe de Lisboa.
Manuel
Maria Pimenta
(AA 19640022)
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