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ALVORADA AO SOM DE TRIUMVIRAT
Estávamos nos anos 70, algures durante o ano leti-
vo de 1976-1977, pertencendo eu nessa altura à 3.ª
Companhia de alunos. A minha camarata era uma
das três consecutivas separadas por arcos, a que
estava virada para o edifício das “Corrécias”.
Nessa manhã a alvorada foi especial.
A alvorada não foi anunciada pelo clarim de serviço,
porque nessa altura, tal procedimento já não era
habitual, não só pelos tempos de mudança que se
viviam resultantes da “Revolução dos Cravos”, mas
também pelo elevado risco, e forte probabilidade
que aportava ao corneteiro receber uma enxurrada
de botas que eram arremessadas quando este, no
cumprindo das suas funções, iniciava o toque de al-
vorada à entrada das camaratas.
foram fugazes momentos passados virtualmente no
éden.
Durante muito tempo não voltei a escutar esse dis-
co, do qual não sabia nem o nome nem o grupo mu-
sical.
Cerca de 23 anos mais tarde, por altura do ano 2000,
enquanto me deslocava de carro para o trabalho,
voltei finalmente a ouvir esse disco e de imediato
me recordei da primeira vez que o tinha escutado
e que tanto me tinha agradado. Voltei novamente a
adorar a sua sonoridade, assim como as memórias
que o mesmo me despertou.
O locutor de rádio no final anunciou que o que tínha-
mos acabado de escutar era o álbum “Old Loves Die
Hard” do grupo Triumvirat, lançado em 1976.
Nessa época, os toques já eram providenciados
pelo sistema de som constituído por vários altifalan-
tes que davam cobertura acústica e estavam distri-
buídos pelas diversas dependências da 1.ª Secção.
Nesse ano letivo era muito frequente, depois de soar
o toque de alvorada, passarem música de bandas
militares e em algumas situações música clássica.
A escolha das músicas ficava ao critério do oficial de
dia.
A agressividade musical, sobretudo das bandas mi-
litares, tinha uma grande eficácia, pois os alunos le-
vantavam-se de imediato, visto ser intolerável ficar
um pouco mais na cama a escutar aquelas horríveis
e insuportáveis melodias.
Quando passavam músicas clássicas, como por
exemplo “As quatro estações de Vivaldi”, essas até
permitiam ficarmos mais alguns minutos debaixo dos
lençóis. A música ficava a tocar até às 8h, que coinci-
dia com o início das aulas do período da manhã.
Nesse dia porém não foram ouvidas bandas milita-
res nem músicas clássicas. Estava de oficial de dia o
saudoso Capitão Valadares, o tal que tinha um Fiat
124 desportivo e que era muito simpático, a quem
os alunos na véspera lhe entregavam os seus discos
para ele fazer passar no sistema de som da 1.ª Sec-
ção a seguir ao toque de alvorada do dia seguinte.
Uma inovação à época, uma espécie de programa
“quando o telefone toca” que as rádios ofereciam a
pedido aos seus ouvintes.
Após o toque de alvorada, nesse dia o Capitão Vala-
dares, brindou-nos com um disco cuja sonoridade fi-
cou retida na minha memória para sempre e que es-
cutei com muita atenção até ao fim, ficando na cama
cerca de uma hora. Foi extraordinário, porque aque-
les longos minutos no quentinho das mantas, me fez
sonhar acordado e esquecer o pequeno-almoço que
acabei por “lerpar”, mas valeu bem a pena, porque
Os Triumvirat foram uma banda alemã de Rock Pro-
gressivo, que surgiu nos finais da década de 60 e
alcançou sucesso na década de 70 do século pas-
sado.
Porque não queria perder o rasto deste disco, de
imediato fiz uma pesquisa na internet e encontrei-o
à venda na loja da Amazon US e comprei-o, numa
época em que estavam a iniciar-se as compras
on-line. Foi esta a minha primeira experiência de
compra on-line.
De tempos a tempos escuto esse álbum, que re-
presenta uma “memória acústica” que está ligada
à minha passagem pelo Instituto, e encontro nele
sempre o prazer que senti da
primeira vez que o escutei.
É para mim um disco intem-
poral, a começar pela primei-
ra música “I Believe”, que me
prendeu aos lençóis numa
fria alvorada, naquele já lon-
gínquo e inesquecível ano le-
tivo de 1976-1977.
José
Silva Raimundo
(AA 19740003)

